Crédito, investimento e gestão colocam as cooperativas financeiras em posição relevante para sustentar a produção rural e o desenvolvimento das economias regionais  

O agronegócio segue como um dos principais motores da economia brasileira. Em 2025, o setor respondeu por 25,13% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, alcançando R$ 3,20 trilhões, segundo levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP) em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A participação supera os 22,9% registrados em 2024 e confirma o peso da atividade na geração de riqueza, emprego e renda em todo o país. 

Manter esse ritmo de crescimento depende de um ambiente de crédito capaz de acompanhar as necessidades do setor. Em uma atividade marcada por ciclos produtivos longos, o acesso ao financiamento influencia decisões que vão da compra de máquinas à construção de armazéns, passando por investimentos em irrigação, industrialização e adoção de novas tecnologias.

Nesse cenário, as cooperativas de crédito vêm consolidando sua posição como importantes financiadoras da atividade agropecuária. Segundo o Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo, do Banco Central, essas instituições respondem por 22% da carteira de crédito rural destinada a pessoas físicas no Sistema Financeiro Nacional (SFN) — carteira que somou R$ 153,3 bilhões em 2025, alta de 16,9% no ano. Além de viabilizar operações previstas nas políticas públicas para o setor, essas instituições financiam investimentos em modernização das propriedades, armazenagem e aquisição de máquinas, fortalecendo cadeias produtivas regionais. O perfil dos tomadores reforça esse papel: pequenos e médios produtores concentram 73% da carteira rural das cooperativas. 

A importância dessa atuação também estará no centro da programação do 16º Concred, que reúne dirigentes e profissionais do cooperativismo financeiro entre os dias 26 e 28 de agosto, em Goiânia, para discutir como o setor pode responder aos desafios de inovação, sustentabilidade e gestão que atravessam o agronegócio.

PAPEL DO PLANO SAFRA E DAS COOPS

O principal instrumento de financiamento da atividade rural continua sendo o Plano Safra. Renovado a cada ano-safra, o programa define os recursos disponíveis, as taxas de juros e as condições para operações de custeio, comercialização e investimento destinadas a produtores de todos os portes e às suas cooperativas.

No ciclo 2026/2027, lançado em 30 de junho pelo governo federal, o volume previsto para o crédito rural chegou a R$ 610,3 bilhões, alta de 2,68% em relação à safra anterior, considerando a agricultura empresarial e familiar.

As cooperativas atuam em duas frentes nesse sistema. Enquanto as agropecuárias acessam linhas para financiar armazenagem, beneficiamento, industrialização e capitalização, as cooperativas de crédito levam esses recursos aos produtores associados por meio das operações previstas na política agrícola nacional. Recursos destinados à construção de armazéns, à aquisição de máquinas, à modernização de agroindústrias e à ampliação da capacidade logística contribuem para elevar a produtividade e reduzir perdas ao longo da cadeia produtiva.

Entre as principais linhas estão o Programa de Desenvolvimento Cooperativo para Agregação de Valor à Produção Agropecuária (Prodecoop), voltado a investimentos em armazenagem, beneficiamento, processamento e industrialização, e o Programa de Capitalização de Cooperativas Agropecuárias (Procap-Agro), destinado à integralização de cotas-partes e ao capital de giro. No novo ciclo, as taxas das duas linhas caem de 13,5% para 12% ao ano.

O novo Plano Safra também amplia o limite de crédito coletivo do Inovagro, de R$ 12 milhões para R$ 15 milhões, mantém o teto individual em R$ 4 milhões e reduz de 14% para 12,5% ao ano as taxas controladas de diferentes linhas voltadas às cooperativas. Na linha de Atendimento a Cooperados, o limite de custeio sobe para R$ 1,1 milhão por cooperado ao ano, enquanto o de comercialização passa para R$ 550 mil.

Outra novidade é a ampliação do financiamento para projetos de energia. O Prodecoop passa a contemplar sistemas de energia solar, biomassa e eólica para consumo próprio das cooperativas, enquanto o Inovagro inclui sistemas de armazenamento, como baterias.

JUROS E PLANEJAMENTO

Apesar dos avanços, o cenário exige cautela. Um estudo do Centro de Estudos do Agronegócio da FGV, divulgado em julho, mostra que o crescimento nominal de 1,7% do Plano Safra empresarial — de R$ 516,2 bilhões para R$ 525,1 bilhões — representa retração de 0,8% quando descontada a inflação medida pelo IGP-DI. Com a Selic em 14,25% ao ano no período analisado, as taxas do crédito rural, embora menores do que na safra anterior, permanecem elevadas em termos reais.

No custeio da soja, os encargos financeiros elevam o custo por saca de R$ 60 para R$ 62,40, alta de 4%. Já na aquisição de uma máquina de R$ 600 mil financiada em cinco anos, os juros somam R$ 116.220, acréscimo de 19,4% sobre o valor do bem.

Também houve redução dos recursos destinados a linhas estratégicas das cooperativas. Mesmo com taxas menores, Prodecoop e Procap-Agro somam R$ 850 milhões a menos que na safra anterior, queda de 28,8%, o que deve aumentar a disputa por crédito e exigir planejamento mais rigoroso.

NOVAÇÃO E GESTÃO EM DEBATE

Nesse contexto, ganha ainda mais relevância o papel das cooperativas financeiras na organização do crédito para o agronegócio. Com presença próxima dos produtores e conhecimento das cadeias produtivas locais, elas direcionam recursos para projetos de expansão, inovação e melhoria da gestão, especialmente em um cenário de custo de capital elevado.

Esses temas estarão em debate no 16º Concred, na palestra “Do Crédito ao Ecossistema: o papel das cooperativas na construção do futuro dos negócios no campo e na cidade”, com Pedro Waengertner, cofundador e CEO da ACE Ventures, professor da ESPM e autor do livro A Estratégia da Inovação Radical. Empreendedor e investidor-anjo, Waengertner também apresenta o podcast Growthaholics e discutirá como inovação, empreendedorismo e visão estratégica podem fortalecer os negócios cooperativos no campo e na cidade.

Serviço

Palestra – Do Crédito ao Ecossistema: o papel das cooperativas na construção do futuro dos negócios no campo e na cidade

Palestrante – Pedro Waengertner

Sobre o Concred 

O 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred) é uma realização da Confederação Brasileira das Cooperativas de Crédito (Confebras), com correalização do Sistema OCB Goiás e com o apoio local das cooperativas filiadas e anfitriãs Cresol, Sicredi Planalto Central, Sicredi Cerrado GO, Sicoob Nova Central, Sicoob Uni e Sicoob Unicentro Brasileira. Patrocínio master do Sistema OCB, patrocínio do CrediSIS, Cresol, Consórcio Embracon, Icatu Coopera, MAG, Mapfre, Sicoob, Sicredi, Tecban, Ubots e Unicred e outras organizações que acreditam no evento e no poder transformador do coop financeiro.