Especialista destacou o papel do setor financeiro na adaptação dos negócios e defendeu a atuação em rede do cooperativismo de crédito

As mudanças climáticas já produzem efeitos sobre a economia e precisam ser consideradas nas decisões de crédito, investimento e, principalmente, planejamento. A análise foi feita pela presidente do Conselho Consultivo do Instituto Equilíbrio, por foi Denise Hills, durante a palestra “Da Sustentabilidade à Regeneração: como organizações podem liderar a transição para uma economia mais resiliente, inclusiva e próspera”, realizada nesta sexta-feira (28), durante o 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred), em Goiânia. 

Para a especialista, o setor financeiro tem papel importante na adaptação dos negócios e na definição de quais atividades receberão recursos no contexto da crise climática. “O fluxo financeiro tem que estar a favor da mitigação desses efeitos e da adaptação da economia a essa nova realidade”, afirmou. 

Com experiência no mercado financeiro e atuação na área de sustentabilidade, a palestrante relacionou riscos climáticos, mudanças regulatórias e oportunidades para o Brasil. Segundo ela, a sustentabilidade deixou de ser uma questão restrita à agenda ambiental e passou a interferir diretamente nos resultados e na gestão de riscos das organizações.

Para ilustrar sua análise, Denise Hills apresentou dados do relatório anual do Fórum Econômico Mundial e chamou atenção para o peso dos riscos ambientais na próxima década. “Dos dez maiores riscos econômicos para os próximos dez anos, cinco têm a ver com efeitos de questões ambientais operando na nossa economia. Temos pouco tempo para promover grandes mudanças, e não consigo imaginar um exemplo melhor de parceria para implementação do que o cooperativismo”, defendeu. 

ADAPTAÇÃO À REALIDADE LOCAL

A especialista também destacou as diferenças regionais dos impactos climáticos. Os riscos não são os mesmos em todo o país e, por isso, as respostas precisam considerar as características de cada território. “A adaptação tem CEP. Ela é regional, então o que serve para o Sul, não serve para o Norte; o que serve para a prefeitura, não serve para a outra”, explicou. 

No Brasil, enquanto o Sul enfrenta maior possibilidade de chuvas intensas, Norte e Nordeste convivem com o avanço de secas e queimadas. No Centro-Oeste, ondas de calor, baixa umidade e incêndios podem afetar a produtividade e as condições de trabalho.

Informações sobre vulnerabilidade climática também podem ajudar a tornar as decisões de crédito mais seguras. Durante a apresentação, ela apresentou plataformas públicas, como o Adapta Brasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que permitem consultar os riscos de cada município e defendeu o uso desses dados na análise das operações de crédito pelas cooperativas. 

O financiamento, nesse caso, precisa considerar as condições que cada atividade poderá enfrentar nos próximos anos. A ideia é direcionar recursos para negócios e infraestruturas capazes de funcionar diante de uma realidade climática diferente daquela observada no passado. “Você teria que construir hoje coisas que estão mais adaptadas a essa realidade para que elas durem mais 10, 20 anos”, concluiu a especialista.

DA MITIGAÇÃO À REGENERAÇÃO

A discussão avançou da redução de emissões para a capacidade de adaptação dos territórios. Entre os exemplos apresentados pela especialista estão a recuperação de nascentes, a restauração de áreas naturais e o desenvolvimento de práticas agrícolas mais resilientes. Segundo ela, soluções baseadas na natureza podem ser mais eficientes e menos custosas do que alternativas tradicionais de infraestrutura.

“Quanto mais rápido e melhor a gente entender a natureza dessa mudança, mais a gente coloca o fluxo financeiro a favor de construir um mundo adaptado para essa realidade”, afirmou.

A transição também exige investimentos em conhecimento e assistência técnica. Na agricultura, por exemplo, a adoção de novas tecnologias e práticas precisa ser acompanhada pela formação de produtores e pela criação de redes de apoio que permitam implementar as mudanças de acordo com as características de cada território.

IMPACTO SOCIAL

Em sua apresentação, Denise Hills também destacou os impactos sociais das decisões empresariais Segundo ela, não basta melhorar indicadores ambientais se fornecedores e trabalhadores continuam submetidos a condições inadequadas. “Não vale ser bom de sustentabilidade e apertar o fornecedor a ponto dele não conseguir ter uma condição de trabalho digno”, afirmou.

A responsabilidade, segundo ela, alcança toda a cadeia de valor. Questões como condições de trabalho, renda, diversidade e direitos humanos também precisam entrar nessa análise. Na concessão de crédito, a análise socioambiental das operações deve considerar os riscos associados às atividades financiadas e seus possíveis impactos sobre trabalhadores, comunidades e territórios.

Além disso, Denise Hills também destacou a sustentabilidade como uma questão regulatória do sistema financeiro e afirmou que a ampliação das exigências de transparência e divulgação de informações aumenta a necessidade de as instituições conhecerem os impactos ambientais e sociais associados às suas atividades. Segundo ela, cumprir as normas é apenas o ponto de partida. O principal desafio está em transformar essas informações em decisões mais assertivas. 

“O que eu recomendo para vocês? Foco em resultado quantificável, uso melhor da informação e da ciência para ajustar e ajudar os cooperados de vocês nesse conhecimento e nessa tomada de decisão”, afirmou.

SOBRE O CONCRED

O 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred) é realizado pela Confederação Brasileira das Cooperativas de Crédito (Confebras), com correalização do Sistema OCB/GO, apoio institucional do Banco Central do Brasil, patrocínio master do Sistema OCB, patrocínio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), CrediSIS, Cresol, Consórcio Embracon, Icatu Coopera, MAG, Mapfre, Sicoob, Sicredi, Tecban, Ubots e Unicred, apoio local da Cresol, Sicredi Planalto Central, Sicredi Cerrado GO, Sicoob Nova Central, Sicoob Uni e Sicoob Unicentro Brasileira e outras organizações que acreditam no evento e no poder transformador do coop financeiro.