Casos apresentados no Concred Digital mostram como criminosos se valem de acessos internos para receber recursos e falhas de controle para executar golpes
Um profissional com alta qualificação técnica aceita uma vaga de estágio, com salário muito abaixo de seu nível de formação e experiência. A justificativa parecia pertinente: estava em busca de uma oportunidade para entrar na instituição e crescer profissionalmente. Por trás da aparente disposição, porém, havia outro objetivo. O estagiário havia sido infiltrado pelo crime organizado para acessar a estrutura interna e captar dados que depois seriam utilizados em fraudes.
O episódio foi relatado pelo advogado e especialista em compliance e governança Inácio Alencastro, durante a palestra “Fraudes e golpes: de quem é a responsabilidade?”, conteúdo exclusivo do Concred Digital, no segundo dia do 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred), realizado em Goiânia.
O caso expõe uma face menos visível de um problema que costuma chegar ao público por meio de falsas centrais telefônicas, mensagens de WhatsApp, boletos adulterados e links maliciosos. O golpe pode começar fora, com a manipulação da vítima, mas também entra no sistema financeiro por brechas para movimentar recursos e, em alguns casos, acessar informações de dentro das próprias instituições.
Em junho de 2025, 39% dos brasileiros afirmaram já ter sido vítimas ou alvo de uma tentativa de golpe envolvendo conta bancária, maior percentual registrado desde o início da série do Observatório da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), em 2021. Entre as modalidades mais citadas estavam clonagem ou troca de cartão, golpes pelo WhatsApp, falsas centrais e fraudes envolvendo Pix.
A partir de situações reais, Alencastro mostrou como essas diferentes pontas se conectam e quais estratégias podem ser adotadas pelas cooperativas de crédito para dificultar a ação dos fraudadores.
DIFERENCIAL DO COOPERATIVISMO
Falsas centrais de atendimento, mensagens e e-mails criados para roubar dados e senhas, boletos adulterados: seja qual for a estratégia usada para enganar a vítima, há uma etapa sem a qual o golpe financeiro não se completa. O dinheiro precisa chegar a algum lugar.
“Todas as vezes que o fraudador aplica um golpe, ele coloca o dinheiro numa conta. Essa conta de destino é um elemento essencial da atividade criminosa. Um boleto falsificado, um phishing ou uma fraude por engenharia social não se materializariam sem uma conta para receber o recurso”, explicou Alencastro.
No entanto, o especialista reconheceu que a velocidade das movimentações aumenta a dificuldade de recuperação. Em questão de segundos, o valor pode passar por uma sequência de contas e, em poucas horas, ser sacado, reduzindo a efetividade de medidas adotadas somente depois que a fraude ocorreu.
Por isso, parte da prevenção ocorre antes mesmo da primeira transferência. O princípio conhecido como Know Your Customer (KYC) — “conheça o seu cliente”, em português — busca ampliar a capacidade das instituições de identificar quem abre e movimenta uma conta e detectar situações incompatíveis com o perfil informado. Para Alencastro, essa prática pode representar um diferencial para o cooperativismo financeiro.
“Ninguém é melhor que as cooperativas de crédito, porque o relacionamento é um pilar central do modelo”, destacou Alencastro, afirmando que impedir a abertura de uma conta destinada a receber recursos de origem fraudulenta dificulta a própria concretização do golpe.
BRECHAS E PREVENÇÃO
Nem todas as vulnerabilidades, porém, estão na entrada de novos clientes. Alencastro citou casos que mostram como relações de confiança entre colegas, concentração de tarefas e falhas na separação de funções podem criar espaço para desvios dentro da própria operação.
“O processo pode ser perfeito ou falho, mas quem burla o processo são as pessoas. Por isso, é preciso trabalhar com prevenção, treinamento e melhoria contínua, além de segregar funções e manter duplos controles”, afirmou.
Resistência sistemática a auditorias, dificuldade em deixar outra pessoa assumir uma função e mudanças abruptas no padrão de vida foram outros indícios apontados pelo especialista. Isoladamente, esses comportamentos não comprovam uma fraude, mas podem servir de alerta para que a instituição avalie com mais atenção o que ocorre naquela área.
A prevenção, segundo Alencastro, passa também por procedimentos básicos, mas que dependem de disciplina para serem cumpridos todos os dias. “Não compartilhe senhas. Bloqueie a tela quando sair da mesa e desconfie de operações urgentes, principalmente de pedidos recebidos por WhatsApp ou e-mail. Hoje existem recursos capazes até de se passar por um superior hierárquico”, alertou.
Entre outras medidas para reduzir a possibilidade de que uma única pessoa consiga executar uma transação irregular e, ao mesmo tempo, impedir que ela seja identificada, o advogado também destacou a limitação de acessos, a separação de responsabilidades e a dupla checagem em operações críticas.
Os canais de denúncia completam essa estrutura. Alencastro ressaltou que eles devem garantir anonimato e proteção contra retaliações, de modo que suspeitas possam ser comunicadas sem expor quem faz o relato. “Você não vai estar expondo um colega. Vai estar preservando a sua instituição e permitindo que quem precisa responder por uma irregularidade seja responsabilizado”, afirmou. “O processo pode ser perfeito ou falho, mas sempre quem burla o processo são as pessoas”, resumiu Alencastro.
SOBRE O CONCRED
O 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred) é realizado pela Confederação Brasileira das Cooperativas de Crédito (Confebras), com correalização do Sistema OCB/GO, apoio institucional do Banco Central do Brasil, patrocínio master do Sistema OCB, patrocínio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), CrediSIS, Cresol, Consórcio Embracon, Icatu Coopera, MAG, Mapfre, Sicoob, Sicredi, Tecban, Ubots e Unicred, apoio local da Cresol, Sicredi Planalto Central, Sicredi Cerrado GO, Sicoob Nova Central, Sicoob Uni e Sicoob Unicentro Brasileira e outras organizações que acreditam no evento e no poder transformador do coop financeiro.