Especialistas debatem sobre sucessão, ética, gestão de pessoas e saúde mental nas cooperativas de crédito

As transformações na economia, na tecnologia e nas relações de trabalho ampliaram as exigências para quem ocupa posições de liderança. O Panorama da Transformação Executiva 2026, estudo produzido pela consultoria 7th Experience, aponta a governança e a conformidade entre os principais desafios da alta liderança brasileira, ao lado da capacidade de converter tecnologia em resultado. Em levantamento global da consultoria Heidrick & Struggles, realizado com mais de 500 CEOs e conselheiros, quase dois terços dos entrevistados afirmam que conduzir equipes distribuídas entre diferentes funções e localidades é uma habilidade essencial.  

Governança, sucessão, ética, transparência e saúde mental passaram a ocupar espaço permanente na agenda estratégica das organizações. No cooperativismo financeiro, essas transformações ganham um peso ainda maior. O Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo, do Banco Central, mostra que o setor encerrou 2025 com 21,2 milhões de cooperados e presença física em 59% dos municípios brasileiros, uma base social que amplia a responsabilidade de quem ocupa cargos de direção. O mesmo levantamento indica que a idade média dos integrantes dos conselhos de administração passou de 57 para 58 anos entre abril de 2025 e abril de 2026. Já o AnuárioCoop 2026 mostra que 57,78% dos dirigentes de cooperativas têm mais de 50 anos. Os números ajudam a explicar por que a sucessão e a qualificação de novas lideranças se tornaram temas centrais para a governança das cooperativas de crédito. 

Esses desafios estarão presentes no eixo “Liderança e governança para a prosperidade compartilhada”, um dos cinco temas da programação do 16º Concred. A proposta dialoga diretamente com o tema do congresso e destaca a liderança e a governança como fatores essenciais para que o cooperativismo financeiro continue crescendo com solidez nos próximos anos. Para Luiz Lesse, presidente da Confebras, investir na formação de lideranças é fundamental para o futuro do cooperativismo. 

“O fortalecimento da liderança e da governança é uma condição para a perenidade das cooperativas. Preparar novas lideranças e conduzir processos de sucessão de forma planejada fortalece a capacidade do cooperativismo de responder aos desafios e continuar gerando desenvolvimento para as pessoas e as comunidades”, explica.

LIDERANÇAS QUALIFICADAS

Decidir nunca foi uma tarefa simples, mas a velocidade das mudanças econômicas e tecnológicas reduziu a margem para erros. Gestores precisam lidar com informações incompletas, ajustar estratégias rapidamente e, ao mesmo tempo, manter o engajamento das equipes. Além do conhecimento técnico, cresce a demanda por adaptação, comunicação e capacidade de mobilizar pessoas em torno de objetivos comuns. 

O Panorama 2026, produzido pela Amcham Brasil em parceria com a Humanizadas, ouviu 629 executivos, dos quais 60% ocupam cargos de alta liderança. As empresas participantes empregam, juntas, mais de 592 mil pessoas. O levantamento aponta a execução da estratégia, a resistência à mudança, a falta de preparo das lideranças e a baixa qualidade dos dados internos entre os principais obstáculos enfrentados pelas organizações brasileiras. A pesquisa também mostra que 77% das empresas ainda destinam até 2% do orçamento à inteligência artificial, embora a tecnologia apareça como prioridade número um para 2026. 

Além das mudanças no ambiente de negócios, temas como governança, ética e transparência sustentam a confiança entre cooperativas e cooperados.Uma pesquisa do Reclame Aqui mostra que apenas 10% dos brasileiros confiam plenamente no setor financeiro, e que a segurança do patrimônio pesa mais na escolha de uma instituição do que taxas ou rendimento.

A sucessão também permanece entre os principais desafios do cooperativismo. Segundo o Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo, em abril de 2026, as mulheres ocupavam 17,7% das cadeiras nos conselhos de administração e 8,2% das presidências, embora representassem 45,3% dos cooperados pessoa física no fim de 2025. No Anuário Coop 2026, do Sistema OCB, a participação feminina nos cargos de direção do ramo crédito aparece em 17,09%.

Para Telma Galletti, superintendente da Confebras, os números apontam para a necessidade de ampliar a presença feminina nos espaços de decisão. “Ainda há espaço para ampliar a participação das mulheres nas instâncias de liderança das cooperativas de crédito.

GESTÃO DE PESSOAS E USO DE DADOS 

A gestão de pessoas vem incorporando ferramentas de análise de dados para apoiar decisões sobre recrutamento e retenção de talentos. Indicadores de clima organizacional e desempenho permitem identificar problemas com antecedência e complementar a experiência das lideranças na tomada de decisão. 

O HR Monitor 2026, da McKinsey, mostra que a gestão de pessoas orientada por dados (People Analytics) ainda está longe de ser regra. Apenas 11% das organizações adotam um planejamento estratégico da força de trabalho com visão de longo prazo, enquanto a maioria continua concentrada em decisões de curto prazo. Já o relatório The Future of Recruiting 2025, do LinkedIn, aponta que empresas que utilizam com mais frequência buscas baseadas em competências — abordagem apoiada em dados — têm 12% mais chances de realizar contratações de qualidade. 

No Brasil, esse processo também avança em diferentes estágios de maturidade. O Índice de Transformação Digital Brasil 2025, elaborado pela PwC em parceria com a Fundação Dom Cabral, aponta que a dimensão “decisões baseadas em dados” foi uma das que mais evoluíram na pesquisa, passando de 3,5 para 4,1 em uma escala de 1 a 6. Apesar desse avanço, o estudo mostra que a transformação digital ainda ocorre de forma desigual entre as organizações, cenário que também se reflete na adoção do uso estratégico de dados pelo cooperativismo financeiro. 

SAÚDE MENTAL

A saúde mental ganhou espaço definitivo na agenda de gestão das organizações. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entrou em vigor em maio de 2026, torna obrigatória a identificação e a gestão de riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), nos mesmos moldes já adotados para riscos físicos, químicos e ergonômicos.

O aumento dos afastamentos por transtornos mentais ajuda a explicar essa mudança. Em 2024, o Brasil registrou mais de 472 mil licenças concedidas por esse motivo, o maior número da série histórica dos últimos dez anos e um crescimento de 68% em relação ao ano anterior, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Em escala global, a Organização Mundial da Saúde estima que ansiedade e depressão provoquem a perda de cerca de 12 bilhões de dias de trabalho por ano, com impacto econômico próximo de US$ 1 trilhão. 

A atualização da norma consolida um movimento que já vinha sendo adotado por muitas empresas: incorporar a saúde mental às estratégias de governança e sustentabilidade, e não tratá-la apenas como uma iniciativa isolada da área de recursos humanos.

CONHEÇA ALGUNS PALESTRANTES DOS TEMAS

MARIA HOMEM

Psicanalista, escritora e pesquisadora das relações humanas, Maria Homem participa do 16º Concred com a palestra “Uma nova liderança para um novo tempo”. A partir da experiência clínica e da pesquisa, ela propõe uma reflexão sobre as relações entre líderes e equipes, tema diretamente ligado aos desafios de conduzir pessoas em contextos de transformação.

MARCOS VERAS

Ator, diretor, escritor e palestrante, Marcos Veras apresenta “O que não muda quando tudo muda?” Sua palestra parte da observação do comportamento humano para discutir relações de trabalho, liderança, hierarquia e cooperação dentro das organizações.

RENATA RIVETTI

Especialista em saúde corporativa, bem-estar e futuro do trabalho, Renata Rivetti conduz a palestra “NR-1 e o Futuro do Trabalho: saúde mental como estratégia de performance e sustentabilidade”. A apresentação aprofunda o debate sobre os impactos da nova norma e a integração da saúde mental às estratégias de gestão de riscos e sustentabilidade nas organizações.

Sobre o Concred 

O 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred) é uma realização da Confederação Brasileira das Cooperativas de Crédito (Confebras), com correalização do Sistema OCB Goiás e com o apoio local das cooperativas filiadas e anfitriãs Cresol, Sicredi Planalto Central, Sicredi Cerrado GO, Sicoob Nova Central, Sicoob Uni e Sicoob Unicentro Brasileira. Patrocínio master do Sistema OCB, patrocínio do CrediSIS, Cresol, Consórcio Embracon, Icatu Coopera, MAG, Mapfre, Sicoob, Sicredi, Tecban, Ubots e Unicred e outras organizações que acreditam no evento e no poder transformador do coop financeiro.